25-07-2008Veríssimo
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.
Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número, (unzinho e eu
ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado
aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina,
casado com a Doralice, feito aquele teste…
Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para
esquecer o que não fiz - aliás, o nome do bar é Imaginário - sentou um
cara do meu lado direito e se apresentou:
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
-Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
-Durante certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção.
Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia.
-Eu sei, eu sei… Disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e
não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o
único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser
um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola
como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da
vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte,
hesitei entre me atirar nos pés de um
atacante e não me atirar. Como era um
herói, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais
nada.
Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto:
bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante.
Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao
lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria
diferença.
Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais
famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o
futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a
ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
- E o que aconteceu? Perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da
VARIG que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
- Bem que tínhamos notado sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço
público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado.
- Você deve estar brincando.
Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas
parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam
ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do
que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças
fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração.
Olhei em volta. Eu lotava o bar.
Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e
nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem
estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que
sim com a cabeça, tristemente.
Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais
rugas.
- Quem é você? Perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- É?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para
baixo.
Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou
as atitudes que você NÃO teve, mas sim, aquilo que foi
feito!
Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!
Hoje eu sei que eu sou a melhor versão de mim mesmo.
Luiz Fernando Veríssimo.

gay but true
25-07-2008 @ 16:27